A final da Classe A foi motivo para muitas, boas e interessantes conversas. No confronto pai e filho, as torcidas se dividiram e tomaram posições. Houve quem apoiasse o “veinho”, a ser respeitado pelo filho, e quem incentivasse o filho, digno de ter a oportunidade de se afirmar vencendo o duelo com o pai.
Pois é, o filho venceu… E com autoridade – 6/0 e 6/3. Mostrou que tem força mental e coragem para superar dificuldades e pressões emocionais.
No meio das conversas e das naturais gozações, a tônica era de que eu, o pai, teria feito corpo mole e não teria jogado com vontade de vencer. Em outras palavras, tinha entregado o jogo. Claro que não foi o que aconteceu. Fosse isto verdade, representaria um desrespeito pela vitória do Lucinho – correta e merecida. Ele venceu porque, naquele dia, foi melhor.
Encontrei em meus arquivos um texto muito bem escrito sobre uma situação parecida que vou compartilhar com vocês. Nele está registrado, de forma perfeita, o que penso sobre a responsabilidade dos pais na formação do caráter dos filhos.
Com este texto expresso minha alegria por ter jogado a final do LEXMARK com meu filho, feliz pela competência dele em vencer o jogo sem precisar de “minha ajuda”. Creio que assim ele estará mais preparado para os jogos e lutas da vida, onde as regras devem ser obedecidas, vencendo o melhor.
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Os pênaltis da vida
Luiz Carlos Prates, Diário Catarinense de 20/01/2002
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Cena comum. Urbana. O filho pega a bola e vem pedir ao pai que jogue com ele. O filho é goleiro, tem seis anos e mal pode com o peso das chuteiras. Mesmo que seja uma chatice, o pai diz que sim, que vai jogar. Pai que é pai tem que participar, não é assim? E lá vai o pai. O filho no gol, quieto. O pai chuta a primeira, bem fraquinha, rasteira, mas nas mãos do filho. Aí campeão, grita o parvo pai. Segundo chute. Rasteiro, fraquinho e nas mãos do filho. Aí Dida, volta a gritar o parvo do pai. Terceiro chute. Pra fora. O pai faz fita. E por aí vai o jogo. Lá pelas tantas, o jovem goleiro satura-se. Ele “sabe” que já é melhor que o Dida que ele nem conhece…
Então quer driblar. E parte para o pai. E o pai toma dribles desconcertantes. Chega a cair sentado. Pôxa, você é o Marcelinho, garoto. E segue o jogo nessa encenação ridícula.
O que há? Simples. O pai quis ser “amigão”, não quis chutar forte no Dida, uma finta que ele não quis derrubar o menino. Como paizão não pode matar o entusiasmo do guri pelo futebol, não pode levá-lo a pensar que é um frangueiro de fraldas. Nada disso. Então, tome enganação. Enganação? Os psicólogos estão dizendo que quem está se enganando é o pai. O guri sabe que o pai chuta mais forte, que sabe driblar. Pôxa, e o garoto que tanto queria aprender com o pai, acaba descobrindo que o pai é um trapaceiro. Um trapaceiro que faz força para perder, que não joga o que pode e sabe.
Esse tipo de conduta “pedagógica” dos pais está sendo duramente criticada por psicólogos arejados. E estão certos, afinal, esta conduta “boazinha” do pai leva os filhos a entender erradamente que para vencer pode-se contar com a ajuda imoral dos pais. As crianças vão aprender que é válido burlar as leis, enganar, tapear. E não vale o argumento de que o pai só não queria desmotivar o filho pequeno… Claro que o pai não vai chutar a bola no filho de seis anos com a força de um torpedo do Edmundo, mas também não deve chutar fraquinho e nas mãos.
É sutil, entende, leitor? O pai tem que ensinar que tanto no jogo quanto na vida há regras, limites, ética. Sendo ajudado desde cedo, o filho crescerá para ser sempre ajudado nas horas dos pênaltis da vida. Vida e jogos são um encontro de regras e limites. Deve vencer o melhor. É ético. É isso que o paizão deve ensinar. Até o dia em que o filho o deixará iluminadamente feliz, mostrando ao pai que ele já sabe jogar. Aprendeu sem ter recebido bolas fraquinhas e nas mãos. Os filhos aprendem com regras e com ética. E com bons exemplos.